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RIACHOS TRANQUILOS Capítulo I: Segunda-Feira

andréia janecek

Espreguiço meu corpo, me levanto e, com delicadeza, fecho a porta do quartinho da minha filha, que tem os lábios entreabertos característicos do seu sono profundo.

Volto ao quarto, afofo os travesseiros e sento-me com as pernas cruzadas. Estico a mão em direção à cadeira de madeira branca que fica ao lado da cama e faz as vezes de uma mesa de cabeceira. Em cima de uma pequena pilha de livros (o romance que estou lendo, o romance que Tom está lendo, o romance que quero ler na sequência, o romance que Tom já acabou de ler e um livrinho que lemos para Aurora ontem à noite) está o meu laptop.

Costumo usar a meia horinha antes de minha filha despertar para colocar fones, ouvir uma música suave e enviar um e-mail exageradamente longo aos meus pais contando detalhes do dia anterior e pedindo notícias deles. Sempre incluo alguma foto do nosso dia a dia que encontro no rolo da câmera do celular. São, normalmente, registros de detalhes do nosso cotidiano na nossa pequena casa.

Ontem, por exemplo, lhes enviei uma foto que mostrava a felicidade de Aurora com suas novas galochinhas azuis pulando numa poça d’água perfeitamente redonda na calçada. Tom a protegia da chuva fraca com um guarda-chuva de plástico transparente e, logo atrás deles, um casal andava bem abraçado um ao outro, a moça rindo enquanto ele falava algo em seu ouvido.


Quando escrevo estes e-mails sinto que eu deveria estar preenchida pela mais pura alegria pelo que vivemos. O tão desejado sonho de viver numa casinha no interior realizado. Aurora crescendo saudável e radiante. Meu marido prosperando em sua carreira. O que me falta? Por que mal percebo tantas conquistas e bons acontecimentos?

Termino o texto me sentindo ingrata. Será que realmente sou esse tipo de pessoa eternamente insatisfeita, sempre desejando mais e nunca estando verdadeiramente contente com o presente?

O que me falta?   


Mal pressiono “enviar”, e Tom chega com duas xícaras de café soltando fumacinha. Ele me entrega uma e coloca a outra com cuidado em cima da pilha de livros na cadeira. Tomamos o café assim, em silêncio, apenas sentindo o calor revigorante da bebida.


Tom sai cedo e passa o dia todo longe, e isso significa que eu, teoricamente, teria o dia todo para adiantar as minhas coisas, ajeitar a casa, brincar e ler para Aurora, preparar as refeições e aproveitar as brechinhas do dia para trabalhar na minha arte.

Mas, sendo bem sincera, parece que eu mal pisco e o dia já passou sem que eu desse conta nem do básico. Sim, eu sei. Não devo me cobrar tanto. Porém como faço para lidar com a sensação de frustração que me acomete, sem pestanejar, todas as noites quando deito minha cabeça no travesseiro? Como faço para deixar o celular de lado e focar no que precisa, de fato, ser feito? Como faço para parar de dar atenção às reclamações que rondam a minha mente todo o tempo? Como faço para ter ânimo e disposição para cumprir minhas tarefas com empenho?


Sabe o quê?  Só preciso tomar uma decisão.

Hoje, segunda-feira, decido que vou, sim, dar conta. Decido que vou, sim, conseguir apreciar as preciosidades que me cercam. Decido que vou, sim, terminar o dia com uma boa sensação de missão cumprida.

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Que bom se fosse simples assim.

Mas a verdade é que o relógio está marcando nove horas da noite. E eu? Eu continuo sendo a mesma pessoa que fui ontem, e antes de ontem, e no dia anterior.  


Amanhã tento de novo.

Boa noite.

 

O post de hoje traz o primeiro capítulo do conto "Riachos Tranquilos".

A cada novo capítulo, vamos vivendo junto da personagem os dias de sua semana e começamos com a segunda-feira. Espero que você goste da leitura♡ Um beijo! A linda obra de arte que usei para ilustrar o capítulo de hoje é da talentosa pintora Sara Qualey.

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